sábado, setembro 19, 2009

Haja.

Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos
Haja.


Alberto Caeiro, Aceita o Universo

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segunda-feira, dezembro 08, 2008

perfeição

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel António Pina

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sábado, janeiro 12, 2008

Cantiga de não-embalar

Decretou-se luto na cidade
sem que alguém tenha morrido.
Os habitantes têm oito séculos de idade
fantasmas que andam num único sentido.
Há alguns (ingénuos) que andam ao invés
estrangeiros falando a mesma língua.

As pessoas sorriem para dentro
a não quebrar a quietude condenada
extremamente cara e consentida
do meu pais pintado de cinzento.

Todas as nossas aventuras são caseiras
e as notícias verdadeiras são orais.
Choramos saudades existentes
de saudades irreais.

Chamem para o nosso funeral
as longínquas e mortas carpideiras.

Um grande peso de outono na nossa vida.

No nevoeiro apitam as sereias
e alastra um medo de afundar.

Andamos de cor num letárgico sono
morrem as palavras na garganta.

E enquanto a morte nos espanta.

(Mendes de Carvalho, in Satírica)

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